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 Literatura

  24/11/2004
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O Analista de Bagé: joelhaço de mestre

Se você já leu O Analista de Bagé, de Luís Fernando Veríssimo, ou mesmo se ainda não leu, não perca este artigo!

O Analista de Bagé: joelhaço de mestre
Da Redação
Quem saberia multiplicar sua herança tão bem quanto o escritor gaúcho Luís Fernando Veríssimo, que conseguiu a façanha de elevar ainda mais o sobrenome que lhe foi dado pelo pai, o famoso escritor Érico Veríssimo? Luís Fernando é o escritor que mais vende livros atualmente no Brasil. O Veríssimo das crônicas e contos únicos, artigos célebres, livros com assuntos desde viagens e gastronomia até romances e contos diversos que vendem mais que água no deserto, conquistou o leitor não só no Brasil, mas também pelo mundo afora.

A primeira edição do Analista de Bagé, publicada em 1981, desapareceu das bancas em veríssimos três dias! Nada de surpreendente, haja vista a qualidade e leveza das crônicas e contos nele presentes. Quem pega O Analista de Bagé para folhear acaba lendo em poucas horas, sem ao menos perceber a passagem do tempo, tão mergulhado fica na fascinante habilidade literária e na impressionante diversidade de assuntos provenientes da cabeça de Luís Fernando.

Criado para ser representado pelo humorista Jô Soares num programa de televisão, o personagem, um gaúcho de fronteira, seria garçom de um restaurante francês. A trama acabou não acontecendo, mas o personagem conservou sua personalidade singular e acabou “mais comentado do que vida de manicure”, brinca seu criador. Aliás, ninguém melhor para falar sobre o Analista de Bagé que o próprio Veríssimo: “Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vêm de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem-educada), mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.” (p. 7)

Apresentado o analista, um dos personagens preferidos do público, e que se diz freudiano convicto, não podemos deixar de ressaltar a mais famosa de suas técnicas: a do joelhaço. A técnica, nada ortodoxa, consiste em aplicar um “joelhaço” nas partes sensíveis do paciente para que seja facilitado o tratamento. Melhor deixar o próprio analista explicar: “Um dia me entrou um índio com cara de quem preferia não ter nascido e eu não me segurei nas bombacha. Fui lá e lhe apliquei o joelhaço. O índio se contorceu feito canivete, mas não se convenceu. Disse que sentia um aperto na garganta cada vez que pensava no infinito e que aquela era pior sensação que um vivente podia sentir. Aí eu cheguei bem perto e perguntei: É pior que o joelhaço?”. A técnica só não surte efeito, segundo o analista com os pacientes masoquistas, que vão ao consultório pelo joelhaço, e não por problemas psicológicos.

Veríssimo abusa de temas dos mais diversificados possíveis. N´O Analista de Bagé, os mais comuns são temas do cotidiano, recheados do humor inconfundível de Luís Fernando. O livro é composto de uma seleção de crônicas e contos variados, com destaque, é claro, para aqueles que têm como protagonista o Analista de Bagé. As crônicas aproximam-se muito do estilo literário dos contos, e nem de longe se assemelham aos artigos jornalísticos que Veríssimo também escreve em alguns dos maiores jornais do país.

A visão de mundo predominante na obra do escritor e jornalista é bastante descontraída e muito bem-humorada, mas também é carregada de responsabilidade quando necessário e já rendeu diversos prêmios e medalhas ao autor.

Veríssimo relaciona-se diretamente com o leitor, de uma maneira ou de outra, seja conversando ou provocando reações espontâneas tais como gargalhadas incontroláveis, divertindo e provocando o público com uma intimidade invejável.

Polissemia, subjetividade, ruptura das convenções lingüísticas, linguagem expressiva, gírias, interjeições e muitas metáforas enriquecem os textos e garantem a “audiência” dos leitores, cada vez mais interessados nas histórias. O livro é composto de crônicas curtas, todas narrativas, como a que segue, a primeira do livro:
“(...) Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.
- Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.
- O senhor quer que eu deite logo no divã?
- Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.
- Certo, certo. Eu...
- Aceita um mate?
- Um quê? Ah, não. Obrigado.
- Pos desembucha.
- Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?
- Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.
- Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe.
- Outro...
- Outro?
- Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.
- E o senhor acha...
- Eu acho uma pôca vergonha...
- Mas...
- Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!
*
Contam que uma vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé. Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.
- Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira...
Mas acabou concordando.
- Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê. Qual é o causo?
- Bem - disse o homem - é que nós tivemos um desentendimento...
- Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?
- Eu não meti a espora. Não é, meu bem?
- Não fala comigo!
- Mas essa aí tá mais nervosa que gato em dia de faxina.
- Ela tem um problema de carência afetiva...
- Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.
- Nós estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento porque ela tem procurado experiências extraconjugais...
- Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?
- Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?
- Ela tá procurando o verdadeiro tu nos outros?
- O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.
- Mas isto ta ficando mais enrolado que lingüiça de venda. Te deita no pelego.
- Eu?
- Ela. Tu espera na salinha.”
(p. 7-9)

Toda essa excelência leva a crer que Luís Fernando Veríssimo começou logo cedo sua carreira de escritor, seguindo os passos do pai, o que não é verdade. Veríssimo filho, apesar de jornalista e escritor de fama indiscutível, nem faculdade fez, apenas concluiu o 2º grau nos Estados Unidos (High School), na época em que morou naquele país com seu pai, que conseguira um emprego de professor. Luís Fernando ainda deu muitas voltas antes de descobrir que nascera para ser sucessor do pai. Tem uma queda para a música, e seu amor pelo saxofone é tão grande que chegou a montar uma banda. Somente quando tinha 30 anos, já depois de casado e pai, é que Veríssimo iniciou a carreira que faz dele o que ele é: o escritor mais querido do Brasil.


- Imagem: Capa do livro



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