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Desde: 27/10/2004      Publicadas: 34      Atualização: 22/11/2005

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 Opinião

  17/11/2004
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Uma metralhadora nas ondas da FM

A Rádio Favela, que antes era pirata, hoje é reconhecida como uma revolução na comunicação em países emergentes

Uma metralhadora nas ondas da FM
Da Redação
São 7 horas da noite. No rádio começa a “Voz do Brasil”. De repente, você ouve: “Começa agora a verdadeira Voz do Brasil”. Na sintonia 106,7 do seu rádio um dos programas mais ouvidos da Rádio Favela, o Bolero do Lero Lero. A vinheta da emissora anuncia que você está na favela. E está mesmo! No centro do Aglomerado da Serra, Vila Fátima, na rua Flor de Maio, número 85. Um predinho simples e sem reboco, de três andares. É de lá que saem as ondas de freqüência média capturadas pelo rádio do carro ou pelo som de casa. Esta é a sintonia da Rádio Favela FM, que funcionou durante mais de 20 anos como rádio pirata e em 1996 foi instituída como entidade cultural e adquiriu alvará de funcionamento pela prefeitura. Hoje, com a concessão de rádio educativa, alcança todo o perímetro da cidade e mais noventa municípios. Mas não foi sempre assim.

A Rádio favela fica, de acordo com dados do geo-processamento da Polícia Militar de Minas Gerais, na segunda maior favela do Brasil, o Aglomerado da Serra (a primeira é a favela da Rocinha, no Rio de Janeiro). Ela tem cerca de 100 mil habitantes e é responsável por 25% das mortes ocorridas em Belo Horizonte. O termo “favela” designa, no Brasil, as regiões mais pobres da cidade onde as casas e a urbanização são feitas sem planejamento. No Aglomerado da Serra existem apenas 10 ruas, os restantes são becos. O traçado urbano não existe e falta infra-estrutura urbana como água potável, luz elétrica e rede de esgoto. Neste ambiente de casas amontoadas vivem as pessoas que moram nos morros e vilas que compõem o aglomerado. São elas o público-alvo e os maiores ouvintes da 106,7 Rádio Favela FM, que com linguagem coloquial e bem próxima dos moradores transmite noções de cidadania, notícias e cultura.

“Com um som limpinho”

“Conhece cachorro vira-lata? Come lixo e não adoece. Ele tem sorte. Favelado é a mesma coisa. Nasce com sorte. Senão morria no parto”. Afirma Misael Avelino dos Santos, 42 anos, fundador da Favela FM. A rádio começou a funcionar em 1981 ainda durante a ditadura, por vontade e coragem de Misael e mais quatro amigos, como ele gosta de dizer, “pretos e favelados”, com um transmissor que eles construíram baseados em um modelo que saiu em uma revista de eletrônica. “Tudo soldado pelo Tião” e colocaram no ar, pela primeira vez no horário da Voz do Brasil, no barraco da mãe de Misael, dona Nair.

No início a rádio mudava constantemente de endereço para evitar ser descoberta pela polícia. Depois de dois anos, ela já alcançava limites fora da cidade “com o som limpinho”. Por causa dessa investida de tentar ultrapassar as barreiras do monopólio das comunicações, Misael foi preso oito vezes, levado para o DOPS, Delegacia de Ordem Política e Social e chegou a ser agredido em algumas delas. Na “rádio pirata” a polícia quebrou tudo: o transmissor, a antena, os microfones, os discos. “Paguei uns cinco transmissores no começo”. Foi incriminado e condenado em três processos. “O negócio só rodava na minha mão. Mas segurei a onda de todos os processos. A galera toda tinha família, filho, não podia dar bobeira”. Por fim, o juiz obrigou o governo e a Anatel a legalizar a rádio. “Lá na Federal (Polícia Federal) todo mundo ouve a Rádio Favela”.

A rádio fica no ar com programação variada das 5 horas da manhã até a 1 hora da madrugada. Depois ela entra no automático e fica até as 5 horas novamente. Possui linguagem irreverente (não hesitam em falar palavrões), o que eles denominam “favelês”. Tocam desde hip hop e James Brown até músicas em estilo brega, como Falcão, passando pelo sertanejo e o samba. Um dos apresentadores é Misael Avelino dos Santos Filho, o Misaelzinho, 16 anos, filho de Misael. Ele trabalha na rádio desde os 6 anos de idade e apresenta o programa de rap, Uai Rap Soul ou, para “mineirar” um pouco mais, Uai Rap Sô. “A gente dá prioridade para o som daqui, de Minas e do morro” ressalta Misaelzinho. Outro programa da Favela FM é A Voz do Vizinho. Com uma hora de duração, ele vai ao ar diariamente ao meio-dia e só toca músicas de artistas mineiros independentes. A grade de programação possui também o A Hora do Corno, com músicas voltadas para aqueles que foram traídos, os popularmente conhecidos como “cornos”. “É engraçado, o povo liga mesmo e assume que é corno” diverte-se o jovem apresentador.

A rádio recebe, em média, 700 ligações por dia. “É só jogar um assunto no ar que chove ligação” comenta Misaelzinho. “Tem gente que liga para xingar a Copasa, a Cemig o cachorro do vizinho, o presidente. Tem de tudo. A gente bota no ar e deixa falar” afirma Misael. De hora em hora a rádio veicula um boletim de notícias. Um dos responsáveis por esta tarefa é Itamar Fernandes, 44 anos, que estudou até a 7ª série do ensino fundamental e responde pelo jornalismo da emissora. Ele é repórter, redator, apurador e apresentador do “Informativo Favela” que surge anunciado pela vinheta “Informativo Favela. Aqui você ouve notícias do morro, de Belo Horizonte, do Brasil e do mundo”. Itamar trabalha na rádio há cerca de um ano e seis meses e tudo começou porque o ex-desempregado procurou Misael e mostrou as crônicas que escreve. “Sou morador do morro. Estava desempregado e precisando sustentar minha família” lembra Itamar emocionado. A oportunidade surgiu e Misael delegou a ele a função de selecionar as notícias. Para a rádio tudo o que é importante para o morro é notícia. “Nós estamos no morro falando para o morro. Quem estiver ouvindo lá do asfalto vai ouvir as nossas notícias” destaca Itamar orgulhoso.

Trabalhando no lado social

Vários projetos sociais são desenvolvidos pela rádio. Ela realiza promoções que levam as crianças da favela ao teatro e ao cinema. No mês de junho a Favela FM promove junto com os moradores a já tradicional festa junina. “Cada um dá o que pode. Uns dão milho, outros leite. Alguns ajudam a fazer, mas todo mundo participa” lembra Kátia de Sousa, 40 anos, moradora do morro há mais de 30 anos.

Eles desenvolvem ainda a escolinha de informática que atende mais de cem crianças e adolescentes da comunidade com aulas de computação. Na sede da rádio foram construídas duas salas para abrigar a escola. “Queremos diminuir a diferença do asfalto pro morro e acabar com os analfabytes” salienta Misael. No local funciona ainda um curso de inglês e um pré-vestibular.

O trabalho desenvolvido pela rádio é reconhecido até mesmo pelos políticos. E, sabendo desta importância, dar entrevista na Favela FM é pauta de vários deles. De acordo com Misael os políticos usam de tudo para se promover. “Ano de eleição eles sobem o morro, bem vestidos em busca de votos. Abraçam e beijam crianças cheias de vermes, com aquário na barriga e depois esquecem”. Este ano a rádio entrevistou todos os candidatos à prefeitura de BH e nas eleições de 2002 para os governos estadual e federal tiveram a presença inclusive de presidenciáveis. Misael entrevista os políticos com naturalidade e considera fundamental conceder espaço para eles falarem.

A rádio se mantém, de acordo Marcelo Santos, responsável pela contabilidade da rádio, “aos trancos e barrancos”. Atualmente ela possui doze funcionários e sua principal renda são os pequenos anúncios que veicula. Tem também, como conta Santos, o “jabá educativo”. “Quando uma banda sobe o morro pra cantar na rádio e pode pagar, nós cobramos o jabá educativo que são lápis, cadernos e borrachas para distribuirmos para as crianças da favela”.

Há cerca de dois anos Misael participou do “De Frente com Gabi” e fala sobre a experiência sem cerimônia. Questionado sobre como foi a entrevista, ele diz que ela (Marília Gabriela) o achou sério demais. “Todo mundo chega lá e fica arreganhando os dentes para ela. Eu não. Fiquei na minha”. Antes preto, pobre, perseguido pela polícia e hoje apresentado na mídia como exemplo de luta e resistência social.

Misael ganhou vários prêmios, entre eles duas condecorações da ONU. Para ele o mais importante é o trabalho feito por eles na comunidade. “Me pedem tudo: remédio, caderno, lápis, cadeira de rodas. Eu faço o que posso”. Ele destaca ainda que atualmente o maior desafio enfrentado pela Favela FM é o combate e resistência às drogas. “Já vi tanto viciado que posso falar que isso é uma merda. Temos que lutar para não deixar nossas crianças se envolverem nesse mundo”. O Sindicato de Jornalistas da Alemanha considerou a experiência da rádio como uma revolução na mídia do chamado terceiro mundo. “Queremos conscientizar e ajudar o povo esquecido daqui”, afirma Misael.

  Autor:   Ruth Soares





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